A Política externa dos EUA é a mesma com Joe Biden?

Fala, Zé! - Por Zé Abramo

28/03/2021

Prof. Lejeune Mirhan * (artigo publicado por permissão do professor e sociólogo Lejuene Mirhan)

No momento que escrevo este pequeno ensaio, o presidente dos EUA já tomou posse há 70 dias. Ouço constantemente que nada mudou na política externa dos Estados Unidos. Não penso dessa forma. Até porque, como dialético que, temos que levar em conta mudanças até imperceptíveis. Se é assim na biologia, por que não seria assim na política também? Comento a seguir aspectos de mudanças, de dúvidas, se mudarão e, o mais importante, o que está sendo mantido.

Biden e o Império

Quando analisamos a política externa de um novo governo dos Estados Unidos – e essa regra vale para qualquer país – devemos nos perguntar: existe algo de novo na política externa? Se sim, o que seira? E ainda se existe algo novo, isso é positivo ou negativo? Como isso reflete no restante do mundo? Como tenho dito há tempos, o presidente dos EUA tem um duplo papel: ele é presidente de um país – e não é qualquer país, mas a maior potência da terra – e ao mesmo tempo ele é chefe de um império, e lutará para manter ou tentar manter essa hegemonia.

É comum ouvir em nosso campo da esquerda marxista, ainda que sejam vozes não tão expressivas e talvez até minoritárias entre nós, afirmações peremptórias do tipo: “nada mudou com a saída de Trump e entrada de Biden”. Tenho dito que estou em completo desacordo com essa afirmação.

Esta afirmação não é correta, aliás, nem é uma afirmação que preze pela dialética. Vou enumerar três aspectos positivos, algumas dúvidas, e de fato alguns problemas. Mas, dizer que não houve qualquer mudança, é não estar sendo dialético. Não quer dizer que todas essas mudanças, que não são substanciais – mas ainda assim são mudanças – que temos que ficar aplaudindo.

A minha interpretação, com base na dialética, é que toda e qualquer mudança, na política externa dos Estados Unidos, sejam pequenas ou substanciais, guardam uma relação direta com a correlação de forças no mundo. Se não muda nada ou até mesmo se ocorrer algum retrocesso, isto em si, é uma má notícia para os povos.

Significa que a luta dos povos do mundo inteiro e o papel que a China e a Rússia estão jogando no mundo, não estão conseguindo barrar a hegemonia estadunidense. Esta é a análise que temos que fazer. Por isso que, ainda que pequenas as mudanças, nós temos que vê-las – não para aplaudi-las –, mas como fruto da luta dos povos do mundo inteiro, que não aceitam mais a hegemonia dos EUA. E elas devem ser vistas também como reflexo da força que têm a Rússia e a China. Esta é uma análise dialética, claro, de meu modesto ponto de vista.

 

As três mudanças principais ocorridas

 

  1. A primeira e, talvez, a mais importante, é que Biden e os democratas em geral, são multilateralistas, ou seja, reconhecem as instituições multilaterais das Nações Unidas: OIT, OMS, Unicef, FAO, Conselho dos Direitos Humanos etc., um conjunto de siglas que fazem parte de nossas vidas, porque são relevantes para nós. E para o mundo inteiro. Quase não podemos mais imaginar um mundo sem a presença desses órgãos da ONU.

Essas instituições, situadas abaixo do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral no cronograma da ONU, multilaterais, são deliberativos na sua área de atuação. A OMS hoje, tem um papel fundamental. E, os Estados Unidos, na gestão Trump, retiraram-se da organização, deixando de pagar a sua cota-parte, provocando um rombo de 250 milhões de dólares, em um orçamento de um bilhão de dólares, justamente, num período de maior necessidade da instituição devido à pandemia da Covid-19.

World Health Organization (WHO) Director-General Tedros Adhanom Ghebreyesus  (Photo by Fabrice COFFRINI / AFP)

Então, ser multilateralista, significa reconhecer as decisões desses organismos do sistema das Nações Unidas, e aceitá-las. Nas reuniões destes organismos, quando há votações, o voto dos EUA, a maior potência mundial, têm o mesmo peso do que o da Ilha de Malta, do principado de San Marino, das Ilhas Marshal. O Biden é multilateralista. Isto não é pouca coisa.

O Trump é unilateralista, não aceitava as decisões dessas instituições, porque achava que seu país é melhor do que todo mundo. Ele não poderia se subordinar a uma maioria e não ganhava em nenhum órgão. Perdia em todas as disputas, especialmente, no Conselho de Direitos Humanos.

A semana que passou, por exemplo, esse Conselho aprovou uma moção apresentada por Cuba, registrando que não há violações aos direitos humanos na China, especialmente na região dos Uigures, etnia turcomena, na fronteira com o Turcomenistão. Uma etnia cuja maioria é muçulmana, mas são chineses. Há um “auê” mundial dizendo que a China desrespeita os direitos humanos daquele povo. O que não é verdade.

(crédito: LIU JIN) China eleva o tom contra sanções ocidentais por Uigures.

Assim, a nova gestão de Biden passa a reconhecer todas as decisões, acatá-las, respeitá-las, voltar à OMS e se subordinar a isso, respeitando o direito internacional no que diz respeito ao âmbito dessas decisões, não é uma mudança pequena. A meu ver, é uma mudança substantiva.

 

  1. A volta à Organização Mundial da Saúde – OMS. Isso significa o reconhecimento das recomendações científicas desse órgão sanitário e médico mundial, como válidos e aplicá-las no âmbito interno. Hoje, as mortes nos EUA, caíram de quatro mil para menos de mil ao dia. Enquanto o Brasil pulou de mil para quase quatro mil e poderá chegar em abril e maio, a cinco mil mortes por dia. Todas as projeções – inclusive as que eu mesmo fiz –, de que chegaríamos a 600 ou 700 mil mortes em dezembro, todas elas estão erradas. Vamos chegar a meio milhão já em junho. Porque aqui, nós não aplicamos as orientações científicas da OMS. Houve um negacionismo.

 

  1. A volta ao Acordo do Clima de Paris (COP-21). Uma das primeiras medidas de Biden, se não foi exatamente a primeira na política externa, foi a volta à Conferência Mundial sobre o Clima, da qual seu antecessor havia saído.

 

Mas, mais do que isso, Biden está implantando, internamente, uma mudança que terá reflexo na quantidade de despejo na atmosfera, de partículas poluentes. É o país mais poluidor do mundo. Ele está mudando internamente a matriz energética dos Estados Unidos. Isto não é um assunto interno, é também externo. Ele nomeou como uma espécie de Czar do Clima, John Kerry, que foi secretário de Estado no governo Obama, onde ele foi vice.

 

 

Então, eles vão mudar a matriz energética, saindo daquela matriz suja, derivada do petróleo e carvão, para uma limpa. Ele fala em dez anos para colocar isso em prática. Isso, por si só, mesmo que seja uma questão interna, não é pouca coisa. Mas, como eles se sentem no direito de dar “pitaco” no mundo inteiro, eles vão questionar a poluição e o desmatamento em várias partes do mundo: por exemplo as queimadas da Amazônia, do Pantanal ou uma devastação na taiga siberiana na Rússia?

Eles vão dar “pitaco” em todo o mundo. Em que linha? Na linha da preservação. Isto não é ruim. Então, não é questão de aplaudir ou não o imperialismo. Nós continuamos sendo anti-imperialistas, com a mesma intensidade. Só que, como somos dialéticos, reconhecemos que estas mudanças são frutos das lutas dos povos do mundo inteiro.

 

Mudanças ainda a serem verificadas

 

  1. Acordo Nuclear com o Irã.

Todos os analistas que eu leio diariamente – e são muitos – dão como certo que os Estados Unidos voltarão ao Acordo Nuclear com o Irã. Não voltaram até agora. Depois de mais de dois meses de governo Biden, não temos notícia sobre esta volta. Todo mundo dizia que ele voltaria. Eu continuo achando que ele voltará, só que está fazendo uma onda, dizendo: temos que repactuar algumas coisas. Como assim? Eles saíram de um acordo e querem discutir antes de voltar? Não! Têm que voltar e depois discutir.

 

Você não pode dar opinião sobre um acordo com muitas assinaturas, se você não é membro desse acordo. Isto parece lógico. O normal é voltar incondicionalmente, como ele fez com a OMS e com o Acordo do Clima. Tem que voltar para o Acordo Nuclear do Irã, e esse país quer isso. O Irã aguarda isso, ele quer a paz no mundo. Quem não quer a paz é o imperialismo estadunidense. Mas, nós não sabemos se isso vai acontecer, de forma que isso é uma dúvida.

 

  1. Cuba.

 

O fato de ele ter mantido as sanções naquelas empresas que comercializaram com Cuba, com base na lei de 1996, chamada Helms-Burton, uma iniciativa do Congresso e sancionada por Clinton, não significa que isso seja um retrocesso. Ele apenas manteve o que já existia, não sancionou novas empresas. Isso vem sendo feito desde Clinton, passando por Bush, Obama e Trump.

A questão central que se coloca é a seguinte: ele vai voltar ao patamar das relações deixadas por Obama até 2016, que foram bastante positivas? Ou vai manter o nível de retrocesso que Trump determinou desde sua posse em janeiro de 2017?

Há um clima favorável a que se volte ao que era no final da gestão Obama, mesmo os Estados Unidos sendo contra o socialismo de Cuba e, é evidente que serão contra sempre. Os EUA têm muitos descendentes de cubanos em Miami, chamados de “gusanos”, que são de extrema direita. Para eles, interessa a normalização das relações com Cuba, eles têm interesse em investir no país. A existência de linhas aéreas regulares de qualquer companhia, ainda estão proibidas. Por isso, espera-se que ocorram mudanças nessa relação com Cuba.

 

  1. Venezuela.

 

Ele suspendeu quase todas as sanções à Venezuela. Quais são as que não suspendeu? Até onde alcança a minha visão, baseado em tudo o que leio nos jornais dos Estados Unidos diariamente, ele só manteve as sanções para as importações dos insumos da indústria petrolífera. Assim, a Venezuela continua sem poder refinar seu petróleo e quebrar a cadeia petrolífera para produzir os derivados.

Mais do que isso. Ele manteve as sanções de forma que a Venezuela segue sendo proibida de comercializar o seu petróleo usando o dólar e o sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication). Vejam a força dos Estados Unidos. O Irã também está proibido de comercializar o seu petróleo. O que é um absurdo. Este poder, em tese, só a ONU deveria ter. E, assim mesmo, se nenhum membro do Conselho de Segurança, que tem o poder de veto, vetar uma resolução desta natureza. Portanto, são sanções consideradas ilegais, não apenas imorais. Elas rompem com a legalidade do direito internacional.

 

  1. Retirada de tropas da Síria, Iraque e Afeganistão.

 

A retirada das tropas da Síria é um dos temas que foi objeto de campanha eleitoral desde Trump em 2016. Não sabemos quantos soldados eles têm na Síria. Isso é um segredo de Estado. Eu suponho que de dois a quatro mil soldados e duas bases militares. No Iraque, são cinco mil em cinco bases e, no Afeganistão, que em outubro deste ano completará 20 anos de ocupação militar, são estimados 15 mil ainda. Nunca na história republicana uma ocupação dos Estados Unidos, desde que Washington tomou posse, em 1778 durou tanto tempo.

Gastaram dois trilhões de dólares nesses 20 anos. O PIB do Afeganistão é de apenas 20 bilhões de dólares. Há, então, uma expectativa de que ele retire essas tropas. Mas, até agora, não o fez. Portanto, são quatro aspectos de dúvidas na política externa de Biden.

 

A política das sanções

 

Concluo esta parte do artigo com o maior problema da atualidade: Biden decidiu manter a política de sanções dos seus antecessores, que é condenada pela maioria dos países e pelo sistema das Nações Unidas. O maior intelectual vivo dos EUA, que é o Noam Chomsky, tem mais de uma dezena de livros dele traduzidos no Brasil, condena o uso de sanções como forma de exercer o poder de um país imperialista. Ninguém concorda com esta postura.

Agora, mesmo neste aspecto, há uma pequena mudança. É nuance, mas como dialéticos, até neste aspecto, devemos reconhecer como importante. Antes, as sanções eram para o país inteiro. Ele agora fez novas sanções contra pessoas, como as próximas ao Putin, próximas ao Xi, próximas ao presidente do Irã, Hassan Rohani.

Ele agora sanciona pessoas e mesmo nesse aspecto, ele sancionou 76 pessoas da monarquia absolutista da Arábia Saudita, pessoas essas que gravitam em torno do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman. Isto nunca havia acontecido antes na história dos Estados Unidos, desde que Roosevelt fez o acordo com o rei da Arábia Saudita, em fevereiro de 1945, dentro do cruzador Quincy Adams, com o rei Abdul Aziz, quando negociou a proteção aos sauditas pela prioridade no fornecimento de petróleo aos EUA e na sua comercialização em dólares.

É a primeira vez desde 1945 que os EUA sancionam sauditas. A dimensão dessas sanções, varia de uma pessoa para outra. Mas, no mínimo, elas perdem o chamado Green Card, que mesmo você sendo estrangeiro, para entrar no país, não precisa entrar na fila de estrangeiros para entrar no país. É um passe livre para os Estados Unidos.

Revogar o Green Card dos amigos do príncipe, é para eles, uma dor violenta. Para eles, os EUA são o país mais importante do mundo. A Arábia Saudita – entre outros países do golfo – se consideram árabes apenas no nome. São na verdade traidores do mundo árabe, são serviçais dos Estados Unidos. Não poder entrar no país do seu sonho, é um grande golpe. Mas, alguns desses, tiveram sanções mais severas, como o congelamento de seus bens, no território estadunidense. Mas, em resumo, ele manteve a política de sanções e nisto, estamos em pleno desacordo.

 

O tensionamento com a China

 

Qual é o maior problema que persiste? Veja que falei de vários aspectos de mudanças positivas, que não são pequenas, falei de algumas dúvidas, falei sobre mudanças superficiais, na política de sanções. E, agora, vou falar do grande problema. E isto, não sei se será modificado. Ainda que a China seja o maior parceiro comercial dos Estados Unidos, estes vivem constantes tensões com esse país. Os EUA compram todos os anos da China, meio trilhão de dólares. E, só exportam para lá 100 bilhões de dólares.

Por que importam tanto da China? Porque, já tem 20 ou 30 anos que empresas estadunidenses saíram dos EUA e migraram para a China. Construíram plantas fabris na China e, essas empresas, como a Apple que fabrica o Iphone lá, têm funcionários chineses. Para esses aparelhos lá fabricados chegarem ao mercado, os Estados Unidos têm que importá-los. Ele entra na balança comercial da pauta de exportação da China. São produtos chineses, Made in China.

Não tem nenhuma justificativa para este tensionamento. E, as coisas estão piorando, porque, especificamente, no mar do Sul da China a tensão hoje é quase que insuportável. A 7ª Frota, capitaneada pelo porta-aviões da classe Nimitz, nuclear, chamado Theodor Roosevelt, que fica permanentemente no mar do Pacífico, e “cuida” desse oceano.

Eles têm frotas espalhadas pelo mundo inteiro. Biden mandou deslocar mais uma frota para lá, que foi a 5ª Frota. Significa mais um porta-aviões nuclear, que é o Nimitz, o mais antigo de todos, que deu nome à classe, que é a nau capitânia dessa naval, que tem sede naquela ilha chamada Bahrein, um país árabe, insular, cujo governo é também traidor dos árabes, e aceita ser sede de uma frota naval. Assim como a Arábia Saudita, também traidora, que permite bases militares, dentro do país que abriga as duas cidades com as duas mesquitas mais importantes para o mundo muçulmano, que são Meca e Medina.

Vista da “Mesquita do Profeta” em MedinaArábia Saudita.

A 5ª Frota saiu do Golfo Pérsico, passou pelo Estreito de Ormuz, navegou no mar da Arábia, uma parte do Oceano Índico, contornou a Índia e hoje navega lado-a-lado com o Theodor Roosevelt. Isto é uma provocação inadmissível à República Popular da China. São todos esses aspectos que ainda temos que acompanhar para verificar se presenciaremos na atual gestão Biden mudanças significativas na sua política externa, rumo a um mundo menos tenso e mais multipolar.

* Sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor e autor de 14 livros, é também pesquisador e ensaísta. Atualmente exerce a função de analista internacional, sendo comentarista da TV dos Trabalhadores, da TV 247, da TV DCM, dos canais Outro lado da notícia, Iaras & Pagus, Rogério Matuck, Contraponto, Democracia no ar, Conexões, todos por streaming no YouTube. Publica artigos e ensaios nos portais Vermelho, Grabois, Brasil 247, DCM, Outro lado da notícia, Vozes Livres e Vai Ali.

 

Agradeço à Ademir Munhóz pelo trabalho de transcrição de meus programas internacionais (ademir@piracaihoje.com.br). Todos os meus livros podem ser adquiridos na Editora Apparte no endereço: www.apparteditora.com.br e as compras podem ser parceladas em até seis vezes sem juros. O meu site pessoal é www.lejeune.com.br, onde estão todos os meus artigos, a maioria de política internacional e também política nacional e Sociologia brasileira. Recebo e-mails no endereço: lejeunemgxc@uol.com.br. Meu Zap é +5519981693145. Meus endereços nas redes sociais são: Facebook: www.facebook.com/lejeune.mirhan; Instagram: @lejeunemirhan; Twitter: @lejeunemirhan; Youtube: lejeunemirhan.

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