Como dançar sem medo em um mundo que ser livre, ser sensual, ser mulher, é um risco?

Filosofia em Movimento - Por Zé Abramo

06/11/2020

Por Luiza Goulart*

Esses dias compramos um sofá aqui pra casa. Minha mãe estaria viajando na data da entrega e eu estaria sozinha para receber o sofá e, consequentemente, os entregadores. E, onde eu quero chegar com essa história de sofá?

Antes da minha mãe viajar ela me deixou algumas orientações de como eu deveria me comportar durante todo o tempo que estivesse na presença dos homens, enfatizou que de modo nenhum poderia fechar a porta de entrada, nem sair da sala e nem mesmo poderia ir até a cozinha para servir um copo d’água para eles.

Se você é mulher, já deve conhecer bem o motivo de toda essa preocupação. Sozinha eu estaria vulnerável, mesmo dentro da minha própria casa. Algo muito normal no cotidiano feminino.

Mas, pera aí! Por que normal? Por que temos que conviver com o medo todos os dias?

Diante do recente caso em que um estuprador foi inocentado graças a culpabilização da vítima acredito que ainda precisamos de muita discussão e entendimento sobre o tema da violência contra a mulher, principalmente se queremos construir um amanhã, em que não mais precisamos viver preocupadas com o que podem fazer com o nosso corpo sem o nosso consentimento.

Eu, enquanto professora de dança, me pergunto: como posso ensinar mulheres a dançar sem medo em um mundo em que ser livre, ser sensual, ser mulher, é um risco? Como a gente pode dançar carregando tanto medo e culpa?

E por isso estou aqui para refletir e buscar soluções para que os corpos femininos sejam livres para dançar e se expressar como quiserem, para que nenhuma mulher tenha mais que correr risco. Para que nenhuma mulher sinta mais medo de ser quem é em sua máxima potência.

O primeiro ponto que acredito ser importante a ser discutido é: como subverter essa lógica em que a vítima se sente culpada pela violência que sofreu?

A vítima nunca tem culpa! Sabemos bem disso, porém na prática este pensamento não é tão simples de ser compreendido. Ainda é uma parcela pequena dos casos de estupro e assédio que acontecem que são denunciados, porque muitas mulheres se sentem culpadas por serem VÍTIMAS de violência (sem nem falar que muitas vezes elas são desacreditadas pelos demais, até mesmo pela justiça).

Formação da Culpa Feminina

Um dos motivos para que isso ainda aconteça é a forma como a culpa feminina é construída muito antes de qualquer tentativa de violência. Para quem cresceu ouvindo frases como: “se comporta, o que vão pensar de você”, “mulher de respeito não usa roupas curtas”, “sente-se como uma mocinha”, “seja educada” e tantas outras, acreditou que carrega em si não só o peso de suas ações, mas também das reações alheias. Todo controle é pouco para que o caráter e a moral feminina não sejam questionados e usados contra ela mesma.

Desde muito cedo vamos sendo reprimidas, e consolidamos internamente essa sensação de culpa muitas vezes sem nenhum motivo aparente, simplesmente por termos um corpo feminino que pode despertar desejo.

Mas não é só o corpo feminino que sofre com a repressão. Arrisco a dizer que tudo que se relaciona com a corporeidade e com os desejos vem sendo estigmatizado. Podemos perceber claramente esse pensamento através da ótica da religião, principalmente da religião cristã, que está inserida na base da cultura brasileira.

Corpo e Pecado? É Justo?

O corpo na ótica que molda nossa sociedade está no cerne do pecado, é um obstáculo ao caminho espiritual e fonte dos desejos da carne. Por essas e outras características mundanas deve ser reprimido, velado, calado, para que não possa criar ainda mais problemas à quem busca a verdade e a salvação. E assim vamos construindo tabus a respeito da nossa sensualidade, erotismo, sexualidade, aspectos inerentes a todos os seres humanos.

Por aí já dá pra ter uma ideia do porque ainda hoje é tão difícil para mulher sentir prazer com o seu próprio corpo, ter uma relação saudável com a sua sexualidade e satisfazer seus desejos eróticos sem culpa. Tudo isso está atrelado a um pensamento muito arraigado no imaginário popular que polariza sagrado e profano, puro e impuro, bom e mau. E nesse jogo dicotômico o corpo ficou do lado de lá.

O Resgate

Resgatar o corpo como universo da experiência cotidiana, muito além da aparência, pode nos ajudar a ter uma outra visão de si mesmo. O corpo como presença divina, sagrada, exige respeito e não se sente culpado por toda sua exuberância e beleza. Afinal, se Deus está em tudo, ele está também no meu corpo e por isso ele merece ser amado por mim e pelos demais.

Não pretendo trazer resoluções acabadas para um problema tão complexo, espero que com essa reflexão possamos observar o corpo não em desacordo com o que é espiritual, mas como um meio de expressão do que existe de mais sublime, em toda sua totalidade. Libertar os corpos é um ideal que pode promover mudanças profundas, não só na vivência individual, mas em nossa sociedade como um todo.

O que poderia ser arte a não ser arte do corpo?

Esse é a nossa casa, nosso meio de vida e nossa forma de expressão nesse mundo. Sinta, dance, cante, celebre! Não deixe que a violência do mundo apague sua chama, precisamos de você forte, intensa, para continuar na luta por um amanhã melhor para todas nós mulheres.

Por um mundo em que dançar sem medo não seja mais um risco e que ser uma mulher livre seja a regra e não a exceção.

assinatura luiza

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