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Crônicas

Jamais fomos realistas (reais)!

por Tiago Sarmento

Nota: isto não é uma aula de história da arte, apenas uma reflexão. Pode ser que professores da área ensinem de outra forma. Mas, felizmente, na vida nem tudo é ENEM.

O antropólogo e filósofo francês contemporâneo Bruno Latour tem um livro chamado Jamais Fomos Modernos, onde revisa toda a crítica ao pensamento moderno colocando o homem que se intitula pós-moderno em um lugar de falácias.  Era moderna, que se caracterizava não mais pela razão tendo Deus como um centro de pensamento sobre o ser – o cógito cartesiano do penso logo existo –, se caracteriza pela dicotomia natureza x cultura, deixando o meio desses pólos apenas como fenômenos pontuais. Contudo, os híbridos que ali estavam entre a natureza e a cultura, segundo Latour, sempre estiveram presentes e analisáveis, tornando, assim, o pensamento moderno como algo que nunca existiu por não conseguir isolar natureza da civilização.

De outro ponto de visto, novamente outro antropólogo e filósofo francês chamado Michel Foucault, declarava que o pensamento moderno (e não o Modernismo!) teve seu início no fim do século XIX através de 3 personagens principais: Sigmund Freud – que trouxe o inconsciente para frente da biologia comportamental –, Karl Marx com seus modos de produção e valores sobre o peso da moeda e Frederich Nietzsche com o seu famoso “Deus está morto!”.

E fomos nós que o matamos!

Mas calma, religiosos… o que Nietzsche quis dizer com isso – e, assim, o pensamento moderno se propôs a fazer –, é que o cógito de Descarte já não era mais uma ferramenta confiável para a ciência. Descarte baseava o seu “penso; logo sou” tendo como referência a figura de Deus como única moeda real e confiável da história do pensamento, como a única constante. Foi esse Deus que Nietzsche “matou”, o Deus do basta apenas pensar para existir.

Freud, por sua vez, disse que o pensamento não é sequer o dono de sua própria casa. Nas palavras de Lacan, “sou onde não penso; penso onde não sou”. O inconsciente inaugurara a era da interpretação, da subjetividade sem um único elemento central – isso é debatível à medida que o simbólico falo entra em cena, mas deixemos isso para as rodas acadêmicas.

O Modernismo (agora sim) conteve em si alguns movimentos artísticos, dentre eles o Romantismo e o Realismo. O primeiro se baseava nos traços modernos de subjetividade e da ilusão imaginária que se chama eu, trazendo sempre a fantasia e a idealização como motes principais. A interpretação ficava por conta do leitor (um abraço Letras do C*S e pessoa que não deve ser nomeada pra evitar processo! Camilo Castelo Branco manda saudações!). O ser romântico era um ser parte benjaminiano, parte woodyallesco, parte “Interpretação dos Sonhos” e parte crente no “felizes para sempre” das histórias de amor.

Ou seja: ser romântico, ao pé da letra, não significa mandar flores ou bombom pro crush, e sim ser remetido a um modo de vida lá pros 1850 - 1900 da vida.

Mas, neste mesmo período, como contraponto à utopia civilizatória do Romantismo, surgiu o Realismo. Como diz o próprio nome, o Realismo buscava retratar a realidade tal qual ela é, sem maquiagem ou ilusões fantásticas. Ao invés das idealizações, o retrato nu e cru de uma realidade que nem sempre satisfazia o escapismo das classes mais altas. O grande problema, como veremos adiante, é que não há uma realidade exata, única e imóvel; a realidade é construída a partir da subjetividade de cada um que supostasmente a interpreta.

Antes do Modernismo propriamente dito unir ilusão, fantasia e realidade interpretativa, o Simbolismo entrava em cena já no início do século XX com sua linguagem metafórica, onírica, mística, contrapondo a estética da poesia virtuosa e engendrada do Parnasianismo – uma parte do Realismo.

Retomando Latour e Foucault, o que marcaria a modernidade, então, seriam os contrapontos entre natureza e cultura, algo que supostamente o pós-modernismo rompeu atuando nos híbridos, onde natur e kultur fazem parte de um mesmo campo interpretativo – seguindo, novamente, pensadores como Charles Darwin, Kierkergaard, Nietzsche, Freud e Marx.

Mas cara, que texto chato! Isto é uma crônica ou uma aula de metodologia?”

Calma, meus queridos 4 leitores (porque, até aqui, já perdi um). Já chegaremos lá.

Flash forward para o estruturalismo francês via Lacan. Este tema então, confuso, às vezes arbitrário e que contém defensores mais apaixonados que petistas ou bolsomínios, não pode ser desenvolvido. Mas vem comigo: Lacan postulou uma paradinha chamado Real, Imaginário e Simbólico.

Em palavras curtas e grossas que fariam qualquer lacanólatra querer me bater – aliás, que atire a primeira banda de Moebius o lacanista que admite que possa haver uma psicanálise freudiana apenas, por mais paradoxal que seja –, Real é aquilo que insiste e não vemos; é aquilo que o tempo todo nos faz tropeçar na “realidade”, do tipo você estar imaginando aquele beijo sensacional com teu crush mas, de repente, o vê na rua com outra pessoa (ou fica com nojo do crush ter mal hálito, ou ser botafoguense ou coisa parecida); não temos controle sobre ele. É o inconsciente que visa a te encher o saco o tempo inteiro junto com uma realidade que existe e você não pode fazer nada a respeito.

O Imaginário é meio que nossa existência “normal”. O tempo inteiro imaginamos. Não digo da imaginação “imagina se….”; o que você vê, o que você ouve, pensa, interpreta tudo faz parte de uma imagem, uma imaginação, um reflexo no espelho. De concreto mesmo não há quase nada, a não ser o Real. Você apenas imagina as coisas que é, quer ou vê; constrói fantasias o tempo todo. Tipo: “meu deus, meu crush me disse ‘beijo boa noite’, isso deve significar que nós vamos casar e adotar 3 crianças do Zanzibar”.

O Simbólico é isso aí que sabemos – ou, pra ser mais preciso, fatasiamos – o que é um símbolo. É algo comum a todos, como as palavras ou a bandeira de um país. É o que buscamos, é o ideal, é o que precisa ser interpretado por conter em si vários aspectos e ser móvel. Depende da cultura. É basicamente a suástica, que significa “bons tempos” para a cultura oriental mas foi apropriada – buscando este mesmo significado, diga-se de passagem – pelo Nazismo. Daí mudou a parada.

Mas enfim, bora lá tratar da crônica de verdade.

Em um paralelo rápido: Romantismo = Imaginário; Realismo = Real; Simbolismo = Simbólico. Sob o totem do moderno, que jamais fomos, ancora-se estes três aspectos.

Mas este Real, esse comichão que te faz virar à esquerda ao invés da familiar direita em determinado dia cisma em tentar te dar uma rasteira, pois é lá que trancafiamos, a custos altíssimos, nossos mais íntimos e asquerosos desejos. Guardamos até mesmo do nosso eu e é apenas por intermédio do Imaginário que temos acesso a eles, de formas mais amenas.

Hoje em dia, vejo um mundo que ainda não parece ter saído das fantasias e idealizações românticas e jamais alcançou o Realismo, seja por medo da realidade nua e crua, seja por medo de seus desejos mais sacanas, que cismam em nos trair. Desejos que só chegam à mente consciente a partir de deslocamentos tão cretinos que já não retratam desejos de verdade, e sim possibilidades de semi-realizações. No fundo, acreditamos que fantasiar sobre um futuro melhor, sobre uma política mais digna e sobre uma vida mais amena seja o ideal. É a fuga através da ideologia.

O Real insiste em te desarmar e a jogar pedra nos teus tetos invisíveis de ar; mostra que os seus direitos, que os direitos que deveríamos ter, não significam nada sob os olhos e as vontades do Outro. O cara do outro lado da rua te mostra que o real, a realidade, é mais dura que qualquer ideologia que você pode sustentar. Com isso, para evitar esse choque, fingimos nos reconhecer nas nossas paixões ideológicas, pequenas fantasias anestesiantes que permitimos chegar ao consciente através de mimos e falsos acalentos no material inconsciente.

Por isso digo: nunca fomos realistas! E jamais seremos reais, pois o preço que se paga ao ignorar a realidade em todas as suas instâncias é a de viver eternamente se olhando em um narcísico espelho de pequenices e mimimismos. Se você acredita que Bolsonaro seja de todo mal e que apenas a Esquerda é de todo bem – ou que o Flamengo é o mal e o Botafogo é o bem, ou que a religião X é correta e o satanismo é o Mal – você vive num imaginário hipócria e doente, pois a realidade não conhece bem Bem nem Mal; ela simplesmente existe.

Fica à cabo do Simbólico, suas leis e convenções a determinar o que é bom ou ruim. Mas o Simbólico desliza e não é todo mundo que consegue captar suas metáforas; ele nos aprisiona em um sentido colaborativo e esquece do que realmente está por debaixo das cortinas: uma ideologia simboliza uma parte das pessoas enquanto seu oposto pode simbolizar outra parte. O resultante são duas partes que estnao absurdamente corretas e honestamente erradas ao mesmo tempo culpando a outra sem conseguir refletir nas próprias condutas e paradoxos.

Romanticamente tomamos ideais e paixões por certeza tão concretas como uma pedra que jamais será furada. Engraçado é não reconhecer que nós mesmos trazemos esses furos. E que concreto só existe na engenharia (ou que a natureza faz estalamitites/estalagmites – nunca lembro qual é qual – e que pingos de água, ao longo do tempo, furam sim uma pedra).

Se jamais fomos modernos é porque jamais saímos da idealização.

Ou regredimos à ela.

Mais ultrapassados que o jornal impresso de dois dias atrás.

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