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Crônicas

O medo do desejo

por Tiago Sarmento

Estamos acostumados a usar o termo desejo como algo que queremos muito. Ao assistirmos uma propaganda, se ela for boa, dizemos que estamos com desejo daquilo. Ao produzir um comercial, os publicitários visam estimular o desejo do espectador. Quando vemos alguém atraente, dizemos que estamos com desejo. Quando um conhecido faz aniversário, desejamos felicidades. 

Somos seres desejantes. 

Para nós, psicanalistas, o desejo vai um pouquinho – ou muito – além desse simples caráter “subconsciente” ou demandatário. Ele está entremeado à nossa existência mais intrínseca e profunda. O desejo é inconsciente e perpassa uma série de fatores que nunca nos chegam claramente à consciência. 

Por isso sentimos o desejo de forma tão contraditória. Por vezes, quando ele tem acesso ao consciente, chega como forma de negação, de repulsa; se torna algo abjeto, algo estranho. Algo que incomoda, angustiante. Não somos seres que sabem lidar com o desejo. Adotamos o tom da demanda consciente e negamos diariamente aquele comichão que teima em nos atacar quando menos percebemos. 

O que é inconsciente chega ao consciente de diversas formas, através de diversos mecanismos. Alguns, como os sonhos ou os atos falhos, causam um mínimo de estranheza; outros, nos atacam nos momentos mais distraídos para se fazerem presentes de forma martelante. 

Mas esta não é uma coluna sobre os princípios básicos da psicanálise. 

Além de sua polêmica posição sócio-cultural nos dias atuais, a psicanálise muito tem a acrescentar, caso o sujeito assim queira, à sua vivência. Outros preferem odiar Freud com uma força incomparável. E é aí que reside o grande pulo do gato. 

Pensa naquela pessoa que mais te atrai. Sinta sua mão em seu corpo. Sinta sua voz chegar levemente aos seus ouvidos. Pense em sua boca aproximando-se do seu pescoço. Imagine seu abraço, seu cheiro, sua maciez. Pense naquele penetrante olhar. No OLHAR! Aliás... 

Agora pense na pessoa que você mais odeia. Lembre daquela coisa imbecil que ela te disse. Pense em quão disprezível são suas atitudes. Sinta o mesmo ódio que você sentiu da última vez que a viu – e não negue que sente ódio; isso só piora as coisas. É ok sentir ódio, tá? Ninguém é #maisamorporfavor o tempo inteiro (aliás, se ainda duvida, convido-o a ir até o fim do artigo ou me chamar pra explicar isso tudo numa mesa de bar). 

Agora pense naquela pessoa que passou por você quase despercebido na rua ontem. Lembra daquela moça que você viu na fila do restaurante? Consegue se lembrar do rosto dela com detalhes? Não né..?

Nos dois primeiros casos, precisamos de uma quota enorme de energia para amar ou para odiar. O calor que nos consome quando lembramos do crush é o mesmo de quando lembramos do desgraçado. O coração palpita igualmente pelos dois. Isso já não acontece com quem nos é indiferente. Mesmo se lembrar do rosto dela, 'quéde' calor no coração?

Sabe aquela história de que o ódio está mais próximo do amor que você imagina? Então, óbvio não? Mas continue a negar a psicanálise, não há problema. 

Nós sabemos o que você realmente esconde sem precisarmos de acreditar em signos, ler mapas astrais ou nem mesmo de você deitar num sofá. Mas também não somos feiticeiros. A coisa é que nós compreendemos mais os mecanismos do desejo que o da demanda. Daí fica mais fácil compreender o que existe por trás daquilo que mais atrai.

Claro, sexualmente também. Aliás, tudo é sexual, não apenas o genital. Escrever, ler, malhar, jogar futebol, tocar guitarra…. Tudo pode ser um ato sexual se há energia envolvida, a mesma do exercício acima. 

Então não é necessário nos dizer mais nada. Você, homem hetero, demanda uma mulher; você, mulher homo, demanda outra. O desejo de vocês é um pouco mais profundo que isso. Nossos instintos, nossas pulsões, nos cobram cada vez mais prazer, independente de onde for. Mas, se for de algo que nos chegue estranhamente à consciência por entrar de choque contra os aspectos culturais que conhecemos vigentes na nossa sociedade, a criação que tivemos ou o que percebemos por nossa conta e introjetamos sobre o mundo que vivemos, pode nos trazer um mal-estar tão grande que nos torna repulsivo. 

Temos preferências? Óbvio. Mas isso é só uma pequena parte do desejo – e, pra ser sincero, a que mais importa pra cultura e a que menos importa pro divã.

Então, amigo homofóbico, não adianta dizer que você é “tão macho que seu lado feminino virou sapatão”. 

Aliás, se precisa dizer isso é porque seu desejo, lá no fundo, tá te incomodando, não?

Por que você odeia tão fortemente um arco-íris ou um beijo na boca entre duas pessoas do mesmo sexo? Por que isso não lhe é indiferente?

E na boa…? Não coloca a família no meio disso não, se faça esse mínimo favor de dignidade. 

Aproveita essa semana que tem o Miss Brasil Gay e a Rainbow Fest em Juiz de Fora e vai divar. 

Quem sabe assim você não melhora?

Ou vai dizer que você também não canta Robocop Gay rebolando?

No mais, quem não tá nem aí pra boca alheia, convido a participar deste movimento cultural que busca nada mais que a liberdade de expressão. Ou então, sei lá… fica em casa, na sua. Assiste Netflix. Deixa a galera lá. 

E que os bolsomínios e pastores do mal-estar sejam atingidos por uma chuva de purpurina e possam se jogar de verdade no oceano do desejo e parar de incomodar quem não tá fazendo nada de mal a ele – e, se estiverem, garanto que é por causa desse desejo, senão seria indiferente. Tá entendendo ou é melhor desenhar?

Mas isso é difícil né? Aceitar os desejos incomoda.

Ai como dói!

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