A Pandemia do Coronavírus e a sociedade controlada

Pandemia corona

Fala, Zé! - Por Zé Abramo

20/05/2020

O que nos reserva o futuro diante de uma Pandemia que se mostra avassaladora, social e economicamente, além de um abalo nos diversos Sistemas Mundiais de Saúde? E quais seriam as consequências desta Pandemia sobre e o comportamento social, face a tantos desafios? Como poderemos nos deslocar livremente e nos relacionar? Assim, num primeiro momento, vamos analisar o controle já efetivado nas sociedades e qual o custo para o cidadão.

Introdução

A tendência de uma sociedade que passa por uma Pandemia é um controle epidemiológico.

A ocorrência de epidemias de Dengue Clássica, Febre Hemorrágica da Dengue e Síndrome de Choque da Dengue, no Brasil e nas Américas, traz uma reflexão sobre sua situação epidemiológica e formas de enfrentamento. O Conselho Nacional de Saúde cria uma Comissão Técnica que propõe o Plano Nacional de Erradicação do Aedes aegypti do Brasil, o vetor de contaminação das pessoas. Assim, todos os profissionais de saúde e a sociedade brasileira devem lutar pela implantação do Plano. Isto é, um plano centralizado em decisões governamentais. E é exatamente o que se espera.

O coronavírus tem colocado todos os sistemas à prova. A tendência é que venha a ocorrer, como de fato já é assim, vários planos e medidas a serem sugeridas e, mais, implementadas. Medidas estas de comportamento da sociedade como um todo, a partir dos especialistas em saúde pública.

Entre elas o isolamento social e, se esse não der conta, o extremo do chamado Lockdown. Um Lockdown é um controle sobre o isolamento mais coercitivo. Natural que assim seja. Porque não podemos partir para uma erradicação do vírus a partir de seu vetor que é o próprio ser humano.

Mas, como é um Lockdown? É um bloqueio total ou confinamento, um protocolo de isolamento que geralmente impede que pessoas ou carga deixem uma área. O protocolo geralmente só pode ser iniciado por alguém em uma posição de autoridade. Este deve ser, no caso da Pandemia, um Estado.

 

Sociedade controlada coronavírus

Lockdonw fecha aeroportos

Alguns estudiosos veem na ocorrência da Pandemia uma oportunidade de criar um mundo melhor. Porque? A sociedade pós-coronavírus pode ser a oportunidade para criar padrões melhores de comportamento. Definir aí o que seria um melhor padrão de comportamento social é onde reside o perigo. Podemos começar por analisar porque essas epidemias começaram a se alastrar.

Com o fenômeno de urbanização, começaram a aparecer doenças que uns transmitem para os outros, por causa do ajuntamento de pessoas. A ciência da Engenharia Sanitária começa aí a pesquisar como serão as melhores medidas para manter as pessoas agregadas, mas com o mínimo de saúde.

Cuidar da saúde da população é algo que vai além de tratar enfermidades. Garantir o saneamento básico, como água potável, tratamento e disposição adequados de excrementos e esgotos humanos; elaborar ações para a prevenção de doenças e criar medidas para evitar e tratar epidemias; vigilância epidemiológica, sanitária e ambiental. Ou seja, a identificação, análise e intervenção de atividades relacionadas à Saúde Coletiva. E isto função precípua de um Estado.

Desastres naturais ou tragédias humanas são combatidos por ações imediatas. Algumas tragédias ou calamidades e até mesmo epidemias, geram reflexões e mudanças. Nenhuma calamidade, por terrível que tenha sido, alterou ao mesmo tempo aspectos sociais, econômicos e ambientais como a Pandemia do Covid19.

Os pesquisadores tinham a esperança que o vírus atual tivesse compartilhado seus genes do SARS original e, portanto, seria fácil identificar correlações com os sintomas dos pacientes anteriores. Mas estavam enganados.

Depois de mais de quatro meses de circulação em 203 países, sabemos que o vírus, ao contrário dos predecessores, tem as características dos vírus influenza.  Se espalha facilmente por pessoas sem sinais visíveis da doença. A marinha dos EUA testou quase toda a tripulação do infestado porta-aviões Theodore Roosevelt e descobriu que 60% dos contaminados nunca mostraram algum sintoma visível.

Mike Davis é autor de vários livros, entre eles Planeta Favela, nos diz que:

“Um amplo universo de casos não detectados pode ser considerado uma boa notícia se as infecções produzissem imunidade duradoura, mas não parece ser o caso. As dúzias de testes de sangue que detectam anticorpos atualmente em uso, todas sem certificado pela FDA, estão produzindo resultados confusos e contraditórios, tornando impossível, no momento, a ideia de emitir registros de permissão de volta ao trabalho com base na presença de anticorpos”.

E não há sinais que a imunidade seja duradoura. A imunidade conferida após infecção é muito limitada e o coronavírus poderia se tornar tão perene quanto a influenza. Isto se não houver mutações dramáticas e segundas e terceiras ondas que podem se dar com vírus pior, mas também menos letal. Portanto, a COVID-19 é presente e sorrateira por muito tempo.

A contenção inicial era crucial: ampla testagem, rastreio de contágios e o isolamento de casos suspeitos. Principalmente nos países que tiveram o exemplo da China como vantagem inicial.

A Ásia pelo perfil de sua civilização parece que veio controlando a pandemia melhor que Europa, e muito melhor que as três Américas. Nem Taiwan e Coreia chegaram a decretar proibição de sair de casa ou fechar lojas e restaurantes. O motivo são as ações assertivas do controle do estado e da disciplina da população em acatar decisões governamentais, tudo foi antecipado para não chegar a este patamar.

Um dado interessante é que os asiáticos espalhados pelo mundo querem voltar para seus países de origem, porque lá se sentem mais seguros.

O filósofo coreano que vive em Berlim na Alemanha, Byung Chul Han, considera que os Estados asiáticos como Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan ou Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural com origem no confucionismo.

O confucionismo estabelece um código de ética fundamentado nos chamados “cinco constantes”, que seriam Benevolência; Justiça; Costumes ou ritos próprios; Conhecimento e Integridade.

De todos o principal é a benevolência, ou, para Confúncio, a boa sensação que uma pessoa virtuosa experimenta quando é altruísta. Isto exemplificado como os sentimentos protetivos dos pais em relação aos filhos.

Outro norte deixado por Confúcio era a importância dos conceitos de lealdade ao governante e respeito filial aos pais. A lealdade para Confúcio serviria tanto para o governante quanto para o governado. O governado deveria obedecer ao seu superior por este possuir qualidades e retidão moral, e, o governante, deveria garantir aos que lhe obedeciam um respeito de modo apropriado. Para o caso de o governante não ser apropriado, o povo deveria destituí-lo.

Dá para notar que a própria sociedade é ensinada ou instruída a manter uma ordem e uma hierarquia, às quais estariam submissos governantes e governados. Isso faz com que uma sociedade assim estruturada dê valor a um estado forte que possa lhe prover do necessário e, ademais, ser previdente e mantenha a autoridade. Em regra geral, espera-se deste Estado a autoridade necessária. Daí podemos dizer que os Estados Asiáticos são autoritários. Não o foram diferentes e nem o seriam daqui para frente. Mas, ao que tudo indica isto é uma opção.

Os asiáticos apostam na vigilância digital como vantagem para vencer o vírus. Então na Ásia as epidemias não são combatidas apenas pelos virólogos e epidemiólogos, mas também, e agora principalmente, pelos informáticos e os especialistas em macro dados. O Ocidente não se deu conta desta mudança de paradigma e nem é afeito a um Estado que lhe imponha passos e lhe diga o que fazer. A ideia de democracia no Ocidente parte de uma visão individual de decisões a respeito da vida, que os Asiáticos consideram ferir a ética do conjunto.

Essa discussão filosófica não cabe aqui. O que temos de focar é quando a mentalidade do controle se tornar ela mesma a Pandemia de controle de dados do cidadão, ao qual o próprio Ocidente já vive sem se perceber e que a Ásia implementa muito além do que sabemos. E esta pode vir a ser a norma pós-Pandemia.

Em outras palavras, a perda de liberdade do cidadão, se permitindo invasão de todos os tipos de dados em prol de sua sobrevivência pode ser a grande guinada para um controle de sociedade muito maior e que no final não seria apenas uma solução para as epidemias, mas para todo o comportamento da sociedade. Este poder e este pretenso direto estaria à disposição de grandes empresas e de estados que querem impor pensamentos e condicionamentos? Até que ponto as epidemias ou pandemias seriam realmente o mote inicial de um controle tão extremado?

Se isto parece ficção vejamos o caso do Crédito Social na China. Uma sociedade que se quer o mais justa, perfeita e com controle de autoridades competentes.

Sistema de Crédito Social Da China

Na China é possível uma vigilância social porque existe uma total integração de dados entre telefonia móvel, os provedores de internet e as autoridades. Também 200 milhões de câmeras para reconhecimento facial, onde as atitudes são avaliadas, entre outras ações menores. Lá não existe proteção de dados em outras palavras, não há esfera privada. Ela não é bem vista.

O governo chinês vem implantando desde 2014 um sistema de crédito social que pretende que até o final de 2020, esteja em total funcionamento. A ideia é avaliar o comportamento dos indivíduos, para então definir um sistema de créditos na forma de uma pontuação que seriam de punições e recompensas. Segundo o governo chinês seria para construir confiança.

O Sistema Chinês entende que isto vai promover a “harmonia social”, ou seja, saúde, higiene e planeamento familiar; segurança social, cuidados com os mais velhos e caridade; trabalho e emprego; educação e investigação científica; cultura, desporto e turismo; proteção ambiental e poupança energética; aplicações e serviços de Internet; vida econômica e social.

Então em cima de dados coletados na internet, em registros do governo e através de reconhecimento facial o cidadão recebe pontuação, quanto às suas boas e suas más ações.

Resumidamente funcionaria assim:

Perde-se pontos se houver infrações de trânsito, conduzir veículo alcoolizado, não visitar parentes idosos ou lhes prestar assistência, mensagens anti-governo nas redes sociais, fraudes em jogos, pedir desculpas não-sinceras por crime cometido, seriam alguns exemplos.

Ganha-se ponto se houver, realização de obras de caridade, cuidar de pessoas idosas, principalmente da família, influenciar positivamente a vizinhança como bons exemplos, tais como: manter rua limpa, ajudar um idoso ou um deficiente em alguma necessidade, ajudar pessoas de baixa renda, ter um bom histórico de crédito financeiro, cometer um ato heroico, falar bem do governo ou de suas políticas nas redes sociais, entre outros.

E pior ainda, se é que tal é possível, é o fato de as pessoas não poderem sair do sistema e de seus “maus comportamentos” não puderem ser esquecidos ou perdoados. O que significa total aprisionamento. Deste aprisionamento resultarão impactos devastadores para os seus filhos e para os filhos destes, na medida em que os mesmos herdarão um mau escore porque, simplesmente pertencem àquela família.

Em suma, gerações inteiras terão uma enorme dificuldade em escapar de um sistema que as sinaliza como “de não confiança”, de acordo com dados que são utilizados fora do contexto e que podem ser publicamente divulgados pelas mídias.

O pior do sistema é que o cidadão não pode sair do sistema. E não perde o status de seu score. Se mal avaliado isto persiste para o histórico de sua família, ainda que sua descendência consiga escores melhores, porque aquele escore pertence à família. E pior ainda, o cidadão não pode criticar o sistema porque isto lhe retira pontos. Como discordar?

Punições e Recompensas

Baixos escores podem levar à indeferimento de licenças e permissões de acesso à serviços sociais; exclusão de reserva de voos aéreos e viagens de trem; menor acesso à crédito; acesso restrito a serviços públicos; nenhum acesso a escolas privadas, entre outras sanções dependendo do nível de perda de pontos.

Quanto às recompensas, seriam por exemplo prioridade em vagas em escolas e empregos; acesso facilitado a empréstimos; aluguel de carros e bicicletas livres de caução; academias gratuitas; menor tempo de espera em hospitais; transporte público mais barato; incentivos fiscais, entre outras benesses dependendo do ganho de pontos-créditos sociais.

Para isto além dos registros e da internet habitual e nos celulares, a China conta, segundo Byung Chul Han, com “200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas providas de uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam inclusive as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Estas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer cidadão nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos”. Todas as ações nos diversos edifícios e ruas são monitoradas.

Diante da Pandemia Atual

Toda a infraestrutura para a vigilância digital resultou agora ser sumamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante, todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus telefones celulares.

Sociedade controlada pandemia

Não à toa, o sistema sabe quem estava sentado onde no trem. As redes sociais contam que inclusive estão se usando drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena, um drone se dirige a ele e lhe ordena regressar a sua casa. Talvez ainda lhe imprima uma multa e a deixe cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas à qual, pelo visto, não se oferece resistência na China.

Na Ásia impera o coletivismo, portanto estas ações são tomadas como normais, bem vistas e muito pouco contrariadas pela maioria dos cidadãos.

Em Wuhan, formaram-se milhares de equipes de investigação digital que buscam possíveis infectados baseando-se em análise de macro dados. Averiguam quem são os potenciais infectados, quem tem que continuar sendo observado e eventualmente ser isolado em quarentena.

Isto levanta a hipótese mais que provável de que nos diz respeito à pandemia: o futuro está na digitalização. Este sistema já existe em outros países asiáticos. Ainda não necessariamente o sistema de créditos de perdas e ganhos, mas para a contenção desta e de outras epidemias possíveis, isto vai se alastrar porque será uma forma de colocar o cidadão com a responsabilidade de seus atos sentida no seu progresso social. E com estas outras ingerências na esfera privada.

Byun Chul Han então enfeixa: “Cheios de pânico, voltamos a erigir umbrais imunológicos e a fechar fronteiras. O inimigo voltou. Já não guerreamos contra nós mesmos, mas contra o inimigo invisível que vem de fora. O pânico desmedido em vista do vírus é uma reação imunitária social, e inclusive global, ao novo inimigo”.

Se enquanto sociedade não formos capazes de alterar o nosso modo de vida, nossas relações com a natureza, viveremos sob prisão a céu aberto. E não faltarão oportunistas totalitários querendo nos salvar de nossas liberdades, nos impondo que continuemos a viver restritos, para que toda a forma de produção e ganho dos grandes capitais além de protegida, seja perpetuada por uma elite, que de repente está ela mesmo no controle de nossas vidas e de pequenas ações. O exemplo chinês não serve apenas a uma sociedade acostumada com a autoridade. Ele servirá à uma população assustada com uma realidade factual, e assim, rendida.

Este pode ser o nosso novo normal?

Fica aí a reflexão.

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